sábado, 15 de outubro de 2011

AVENTURAS E DESVENTURAS DE UMA PROFESSORINHA


“As coisas estão no mundo,só que é preciso aprender...”
                                          Paulinho da Viola

Minha mãe,formada pela Escola Normal,aos 17 anos,cismou de ensinar no interior da Bahia,isso na década de 30,quando Lampião,o rei do cangaço,aterrorizava o sertão.
Meu avô materno,homem extremamente conservador,nem queria ouvir falar nisso,mas,não sei como,minha mãe,frágil,tímida,mignon, ,muito obediente,conseguiu o consentimento.
Assim,ela e minha avó,tomaram a “Maria Fumaça”,na estação da Calçada,rumo ao seu destino,a cidade de Jacobina,lá onde o diabo perdeu as botas e o vento faz a curva,como se diz.Três dias para chegar em Jacobina,com baldeação em Santa Luz;e mais um para chegar em Miguel Calmon,remota cidade do interior,perdida nos tempos ,além de mais um dia á cavalo,até a Fazenda Brejo Grande,reduto dos Oliveira,ponto final dela.
Meu avô, Antonio Jerônimo,sabedor da vinda da “fessorinha”,não poupou esforços para buscá-la,lá na Sede.Escolheu o melhor cavalo,manso,bom de trote,que seria a montaria das recém-chegadas, providenciou a sela própria para mulheres,que sentavam de lado,pois damas não usavam calça comprida;como complemento,um cochonil bem macio,esporas de prata,fortes rapazes para escoltá-las,pois os cangaceiros andaram por ali,descendo a serra do Tombador e tinham que estar preparados para o pior.
A chegada á fazenda,deixou  minha mãe   encantada ,pois,um mundo novo e diferente descortinava-se diante dela.A casa de farinha,o engenho,o pomar,o rio,o curral,a casa grande com mais de dez quartos,uma mesa de refeições,onde caberiam,sem apertos,uns trinta comensais,o povo simples e amistoso,para quem professora era uma espécie de deusa do saber,respeitada e mimada por todos.
No dia seguinte ela assumiu a classe;classe essa composta de adultos ,alguns com mais de trinta anos,que não sabiam ler nem escrever.
A matrícula foi hilária; minha mãe perguntava a data de nascimento ,mas,ninguém tinha registro,nem certidão,nada;então diziam:
-Ele nasceu quando o veio Jerônimo levantou a cumeeira da casa do Barreiro;pacientemente,minha mãe perguntava ao meu avô paterno   sobre o sucedido e ele respondia:
-Ah,foi em outubro de ´27;minha mãe colocava que o cabra nasceu em qualquer dia de 1927,outubro.
Outra chegava meio constrangida,pois tinha perdido o “assento” e não lembrava de nada;assento era o papelzinho onde se assentavam as datas familiares,pois,os mais pobres não tinham a Bíblia onde os mais abonados   assentava os acontecimentos importantes da família, criando um novo Gêneses.
Se minha mãe queria saber de vacinas,respondiam:
-No tempo da vourilha(varíola)ele foi avalcinado, adespois disso mais nunca.
Apesar do respeito pela professora,havia garotos que não gostavam de estudar e queriam era viver pelos matos,pegando passarinhos,livres,leves e soltos,subindo nos umbuzeiros ou raspando mandioca para fazer farinha .Assim,fugiam da escola e não aprendiam nada.
Um deles era o Fulgêncio,garoto levado,ágil como um cabrito,que se sentava no fundo para fugir mais rápido.
Um dia,chegou o Inspetor,que veio ver o progresso da classe;minha mãe preparou todos direitinho,a lição era  de Historia,descobrimento do Brasil;como o diabo arma,o Inspetor escolheu logo o Fulgêncio,por ser o menorzinho da classe,para responder:
-Quem descobriu o Brasil?
O garoto, nervoso,acostumado a ser culpado,com razão,de (quase)todos os mal feitos,respondeu;
-Nun fui eu Sr.Inspetor,eu juro.
O Inspetor insistiu na pergunta, ele negava,minha mãe vexada não sabia o que fazer,chegou a mãe do garoto,ouviu a demanda e falou firme pró Inspetor:
-Foi ele ,sim,dotô;esse minino é assim,faz as coisas,depois nega,tem a boca dura.
Quatro anos depois minha mãe se casava com meu pai,eu nasci em Salvador,mais voltei prá fazenda com três meses de idade,vivi lá até meus oito anos(ai que saudades que eu tenho...)e minha mãe ensinou lá quase quarenta anos.
Foi Diretora,Delegada Escolar,e,se alguém quiser  saber quantos  alunos ela ensinou as primeiras letras,que conte os fios dos seus cabelos brancos,que hoje repousam com Deus.

                 Minha mãe,aos 80 anos,53 de profissão
P.S:Neste texto homenageio todos os abnegados  professores e professoras  cuja luta em prol da Educação nos faz acreditar que nosso país tem jeito.





PROFESSORES,CONSTRUTORES DE UM NOVO BRASIL!

Palavra do leitor:
Caríssima amiga o meu muito obrigado pela lembrança no Dia do Professor.Na verdade somos nós,escritores,professores que no cotidiano constroem novos mundos,otimizando melhores dias para todos.Somos todos professores,sim,e professamos aquilo que acreditamos:a liberdade de criar como instrumento para uma vida melhor.É por isso que digo sempre que o meu Eu professor não acaba  em mim.Para nós,Parabéns.Cézar Ubaldo,escritor feirense.



12 comentários:

  1. Oi amiga Miriam, obrigada por mais esta leitura deliciosa. Aos mestres todo o nosso carinho e respeito. Infeliz daquele que faz o contrário. Bj. minha linda.

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  2. Excelente a sua homenagem aos professores! Realmente fazemos parte de uma profissão nobre, mas tão desvalorizada! Bjs

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  3. Que bela homenagem, você nos prestou, Mirian! Somos os aprendizes e construtores do saber. Obrigado, querida! Abração.

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  4. OI Miriam querida,

    que belíssima homenagem!!!!

    Isso é história! Isso é lindo!

    Fiquei emocionada...

    Abraços minha cara, ainda vou na Bahia te conhecer!!!

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  5. Me sumergí en la quietud y belleza de tus letras y disfruté. Desde Jaén un saludo y feliz día

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  6. 53 anos de magistério???? Uma heroína, amiga!
    Beijocas!!!

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  7. Pois é;formou-se pela Escola Normal aos 17 anos e ensinou até os 63,mesmo já aposentada.
    bjs

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  8. Muchas gracias,Miguel.Espero verte de nuevo.Saludos

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  9. Palavras,é muito doce reverenciar a nossa mãe;uma homenagem merecida. bjs

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  10. Querido Tunin,obrigada por estar sempre aqui. bjks

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  11. Célia,sem os professores,nossos primeiros mestres na vida,como ficaríamos?
    bjs

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  12. Querida Marina,um grande abraço pleno de carinho.

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